Quando o dinheiro público vira pó

Há escândalos que surgem aos poucos, como infiltração numa parede. Outros arrebentam a estrutura de uma vez. O caso envolvendo o BRB e o Banco Master pertence claramente ao segundo grupo.

DENÚNCIA

Wilson Ribeiro

1/3/20262 min read

Há escândalos que surgem aos poucos, como infiltração numa parede. Outros arrebentam a estrutura de uma vez. O caso envolvendo o BRB e o Banco Master pertence claramente ao segundo grupo.

Segundo depoimento prestado à Polícia Federal, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, admitiu que o banco público adquiriu R$ 12,7 bilhões em ativos problemáticos do Banco Master. Quando a operação passou a ser investigada por suspeita de fraude, iniciou-se uma corrida para substituir esses papéis por outros ativos — numa tentativa de conter o desastre.

O problema é que o desastre já havia acontecido.

Do total investido, R$ 2,5 bilhões simplesmente desapareceram, sem lastro, sem explicação clara, sem recuperação até o momento. Outros R$ 5 bilhões foram convertidos em ativos sem liquidez, isto é, bens de valor incerto, difíceis de vender e potencialmente inúteis para recompor o caixa do banco. Em linguagem simples: dinheiro público foi trocado por promessas, terrenos e papéis que podem nunca se transformar em dinheiro de verdade.

Esse é o ponto central que não pode ser relativizado. Banco público não opera como fundo de apostas. Não existe “criatividade financeira” aceitável quando o risco recai sobre recursos que pertencem à sociedade.

A responsabilidade política também não pode ser varrida para baixo do tapete. Ibaneis Rocha indicou o presidente do BRB. Indicações políticas não são crime por si só, mas carregam consigo responsabilidade direta. Quando a gestão indicada participa de operações que resultam em bilhões em prejuízo potencial, a omissão passa a ser parte do problema.

Ainda mais grave é a naturalização do absurdo. Trocar papéis fraudulentos por “ativos” de liquidez duvidosa não é solução — é empurrar o problema para o futuro, na esperança de que o tempo dissolva a indignação pública. A conta, porém, não evapora. Ela fica.

Este caso não é apenas sobre números gigantescos. É sobre governança, controle, transparência e, sobretudo, sobre respeito ao dinheiro público. Quando bilhões “viram pó”, não estamos falando de abstrações financeiras, mas de recursos que deixam de ir para saúde, educação, transporte e serviços essenciais.

O mínimo que se espera agora é investigação rigorosa, responsabilização clara e transparência total. Qualquer coisa menos do que isso transforma o escândalo financeiro em algo ainda pior: um escândalo moral.

Porque quando ninguém responde, a mensagem é simples — e devastadora: perder bilhões pode não dar em nada.