OPINIÃO | O retorno de Marcos Valério ao noticiário e o velho fantasma dos esquemas fiscais
O nome de Marcos Valério voltou a circular com força no noticiário nacional, desta vez ligado a uma investigação sobre um suposto esquema de sonegação de ICMS em Minas Gerais. A operação, que mobilizou o Grupo de Recuperação de Ativos do estado durante um ano e meio, aponta para um mecanismo clássico do submundo tributário:
OPINIÃO
WILSON RIBEIRO
1/2/20262 min read


O nome de Marcos Valério voltou a circular com força no noticiário nacional, desta vez ligado a uma investigação sobre um suposto esquema de sonegação de ICMS em Minas Gerais. A operação, que mobilizou o Grupo de Recuperação de Ativos do estado durante um ano e meio, aponta para um mecanismo clássico do submundo tributário: empresas de fachada, notas frias e mercadorias que, no papel, atravessam fronteiras, mas que na prática não saem do estado.
A suspeita das autoridades é direta: a rede de supermercados investigada teria simulado vendas interestaduais para driblar impostos, movimentando mais de R$ 200 milhões fora do radar fiscal. Segundo os investigadores, Marcos Valério teria atuado como articulador de parte desse processo. Ele nega, mas o fato de ser novamente associado a investigações de grande porte acende um sinal que o país conhece bem.
Vale insistir na palavra-chave: investigação. Até agora, nada foi julgado, nada foi provado, e qualquer conclusão definitiva seria precipitada. Ainda assim, há algo que salta aos olhos: a repetição de padrões que o Brasil já viu demais. A combinação entre grandes grupos econômicos, estruturas paralelas criadas para “otimizar” tributos e operadores experientes é velha conhecida. É como se o país estivesse preso em um carrossel que gira devagar, mas não para.
Chama atenção também o impacto econômico e social desse tipo de prática. Quando grandes empresas escapam do pagamento de impostos, o prejuízo não é abstrato. Falta na escola pública, no hospital, no ônibus que não chega. Crimes tributários raramente geram manchetes tão barulhentas quanto escândalos políticos, mas corroem o país de forma silenciosa — e constante.
Outro ponto delicado é o envolvimento de empresários de relevância no setor varejista, inclusive um dos maiores acionistas do Grupo Pão de Açúcar, citado como alvo da operação. A presença de figuras com esse peso mostra que a sonegação de alto nível não acontece à margem do sistema: ela se alimenta justamente de posições privilegiadas dentro dele.
O bloqueio de valores determinado pela Justiça — pouco menos de meio milhão de reais — parece modesto perto das cifras mencionadas na investigação. Mas medidas cautelares desse tipo costumam representar apenas o início de um processo longo, que depende de provas e contraditório.
Ainda não há manifestação pública das defesas dos citados. E esse silêncio também precisa ser respeitado: investigação não é condenação, e a Justiça tem seu próprio ritmo, que muitas vezes desagrada quem busca respostas imediatas.
O episódio, no entanto, reforça uma sensação desconfortável: o Brasil ainda não conseguiu superar a era dos esquemas tributários de grande escala. Mudam-se os nomes, os setores, as cifras. O roteiro, porém, permanece intacto.
Enquanto isso perdurar, cada operação policial não será exatamente uma novidade, mas uma repetição — cansativa e cara — daquilo que insistimos em varrer para debaixo do tapete fiscal.
