Entre a legalidade quebrada e a esperança social: por que parte dos venezuelanos vê a queda de Maduro como libertação

Para muitos venezuelanos, a discussão já deixou há muito tempo de ser sobre ideologia. Não é socialismo versus capitalismo, esquerda versus direita. É algo mais básico e mais antigo: permanecer vivo, livre e com futuro.

OPINIÃO

PORTAL PHOENIX

1/3/20262 min read

Para muitos venezuelanos, a discussão já deixou há muito tempo de ser sobre ideologia. Não é socialismo versus capitalismo, esquerda versus direita. É algo mais básico e mais antigo: permanecer vivo, livre e com futuro.

A acusação central contra Nicolás Maduro não é apenas má gestão. É a erosão deliberada da legitimidade democrática. Eleições questionadas por observadores internacionais, perseguição a adversários políticos, prisões arbitrárias, exílios forçados e relatos consistentes de repressão violenta formam um quadro que, para muitos cidadãos, já não se parece com um governo — mas com um regime de autopreservação.

Quando se afirma que o vencedor de uma eleição foi preso ou expulso do país, o que está em jogo não é um detalhe jurídico, mas o colapso do contrato social. A democracia deixa de ser um processo e passa a ser um adereço. Nesse contexto, cada opositor silenciado envia uma mensagem clara: o poder não será disputado, será mantido.

Os relatos de mortes de opositores — sejam documentados por organizações de direitos humanos ou narrados por quem vive a realidade cotidiana — criaram uma percepção profundamente enraizada em parte da população: a de que o Estado se tornou um agente do medo. Quando o medo governa, a esperança passa a procurar qualquer fresta por onde escapar.

É por isso que, para muitos venezuelanos dentro e fora do país, a retirada de Maduro do poder não é vista como ingerência estrangeira ou golpe geopolítico, mas como o fim de um cativeiro prolongado. A palavra “tirano”, nesse discurso, não surge como exagero retórico, mas como tentativa de dar nome a uma experiência vivida.

Isso não significa ignorar os riscos. A queda abrupta de regimes autoritários nem sempre produz democracias estáveis. O vácuo de poder pode gerar caos, disputas internas, novas formas de violência. A história latino-americana conhece bem esse roteiro. A esperança, porém, raramente nasce de cenários ideais; ela nasce do esgotamento.

O ponto essencial é este: quando uma parcela significativa da população passa a enxergar a saída forçada de um líder como única possibilidade de recomeço, algo muito profundo já foi rompido. Não é mais sobre Maduro. É sobre o direito de imaginar um amanhã.

A Venezuela vive há anos numa encruzilhada cruel: permanecer num presente que sufoca ou arriscar um futuro incerto. Para quem perdeu familiares, liberdade ou pátria, a incerteza às vezes parece menos assustadora do que a continuidade.