Contatos de Alexandre de Moraes com presidente do BC sobre Banco Master ampliam questionamentos éticos e institucionais

Quando um magistrado dessa estatura busca informações ou manifesta opiniões a um órgão regulador sobre um caso envolvendo fraudes bilionárias — especialmente quando existe um contrato profissional entre a instituição investigada e o escritório de sua esposa — o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser institucional.

O CRIME ORGANIZADO

Phoenix Tpnews

12/23/20254 min read

Apurações realizadas ao longo de várias semanas indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes manteve contatos diretos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar do caso envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, em meio à análise da proposta de compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB).

A reportagem ouviu seis fontes com acesso às informações, entre integrantes do Banco Central e interlocutores próximos ao próprio ministro. Segundo esses relatos, os contatos ocorreram por telefone e em encontros presenciais, especialmente em julho, quando o Banco Central já avaliava medidas mais severas diante de indícios de irregularidades graves no Banco Master.

Operação sob suspeita

A proposta de aquisição do Banco Master pelo BRB foi anunciada em março, desencadeando a abertura de um processo administrativo no Banco Central para avaliar a operação. Àquela altura, diretores da autarquia já demonstravam divergências internas: parte defendia a rejeição do negócio, enquanto outra avaliava a possibilidade de intervenção no banco.

No mercado financeiro e em Brasília, circulavam informações sobre problemas contábeis e possíveis fraudes. Essas suspeitas acabariam se confirmando meses depois, quando investigações conduzidas pelo Banco Central, Ministério Público e Polícia Federal apontaram a falsificação de contratos de crédito usados para justificar a transferência de aproximadamente R$ 12 bilhões do BRB para o Banco Master.

Relatos sobre a atuação do ministro

De acordo com fontes que tiveram acesso às informações, Alexandre de Moraes procurou Gabriel Galípolo para questionar sobre o andamento do processo e a possibilidade de concretização do negócio. Em ao menos uma das conversas, o ministro teria afirmado que gostava de Daniel Vorcaro e que o banqueiro estaria sendo “perseguido pelos grandes bancos”, argumento que era frequentemente repetido por Vorcaro no mercado financeiro à época.

Galípolo teria respondido que a operação não poderia ser aprovada, pois o Banco Central já tinha conhecimento de indícios robustos de fraude. Diante disso, o ministro teria concordado que, havendo fraude, a autorização seria impossível, encerrando o diálogo.

Pouco tempo depois, as irregularidades vieram a público: Daniel Vorcaro e outros executivos ligados ao Banco Master foram presos, e a instituição entrou em processo de liquidação.

Contrato de advocacia e conflito de interesses

O caso ganhou contornos ainda mais sensíveis após a revelação de um contrato de advocacia firmado em janeiro entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O contrato, com valor elevado e escopo genérico, previa a atuação do escritório junto a diversos órgãos federais, incluindo Banco Central, Cade, Receita Federal e o Legislativo.

Até o momento, não há registros públicos que indiquem atuação efetiva do escritório da advogada nos procedimentos conduzidos pelo Banco Central. O Cade, por sua vez, aprovou a operação do ponto de vista concorrencial, por entender que a transação não afetaria significativamente o mercado, dado o porte reduzido das instituições envolvidas.

A reportagem protocolou pedidos via Lei de Acesso à Informação para esclarecer os detalhes da atuação do escritório e a tramitação do contrato em diferentes órgãos, mas parte das respostas ainda não foi fornecida.

Um episódio que expõe fragilidades institucionais

Embora contatos entre autoridades não configurem, por si só, ilegalidade, especialistas em direito público e governança ouvidos reservadamente afirmam que o episódio levanta questionamentos relevantes sobre limites éticos, conflitos de interesse e a necessidade de transparência, sobretudo quando envolve um ministro do Supremo Tribunal Federal e um órgão regulador central para o sistema financeiro.

A situação também reacende o debate sobre a influência informal nos processos decisórios do Estado e sobre como relações pessoais podem tensionar a separação entre os Poderes.

O ministro Alexandre de Moraes, o Banco Central e representantes do Banco Master foram procurados, mas não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

Opinião

Mesmo que não haja, até o momento, comprovação de ilegalidade, o episódio expõe uma zona cinzenta preocupante para as instituições brasileiras. Um ministro do Supremo Tribunal Federal ocupa uma posição singular no sistema republicano: sua atuação, ainda que informal, carrega peso político e simbólico incomparável.

Quando um magistrado dessa estatura busca informações ou manifesta opiniões a um órgão regulador sobre um caso envolvendo fraudes bilionárias — especialmente quando existe um contrato profissional entre a instituição investigada e o escritório de sua esposa — o problema deixa de ser apenas jurídico e passa a ser institucional.

A confiança nas instituições não depende apenas da legalidade estrita dos atos, mas também da percepção de independência, imparcialidade e prudência. Nesse contexto, o silêncio, a falta de esclarecimentos públicos e a ausência de transparência tendem a ampliar dúvidas, não a dissipá-las.

Casos como este reforçam a urgência de regras mais claras sobre conflitos de interesse e sobre os limites da atuação informal de autoridades, especialmente quando estão em jogo a credibilidade do sistema financeiro e a integridade do Estado de Direito.